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A Hostilidade de Amar o Próximo

Por J. Chase Davis


Há anos, um dos principais versículos defensivos para os cristãos gira em torno do ensino de Jesus de “não julgar”. Esse ensinamento de Jesus, normalmente retirado do contexto de Mateus 7:1 e Lucas 6:37, tem sido usado para frustrar qualquer tentativa de aplicar a lei e os padrões de Deus à vida das pessoas. Se você fosse sugerir que alguém estivesse vivendo pecaminosamente, eles poderiam responder com “não julgueis” e neutralizar a ameaça com eficácia impressionante, mesmo que o contexto original advertisse contra fazer julgamentos com dois pesos e duas medidas.


Embora essa tática popular tenha sido empregada por não-cristãos e também por cristãos nominais desinteressados em andar em obediência, agora há um novo ensinamento de Cristo que se tornou uma arma não apenas de defesa, mas também de ataque: “ame o seu próximo”.


Em 11 de julho de 2021, a vice-presidente americana Kamala Harris disse: “Acredito que o ato de ser vacinado é a própria essência - a própria essência do que a Bíblia nos diz quando diz: 'Ame o próximo'”. Para muitos oficiais do governo, esse ensinamento bíblico foi usado para fornecer uma razão espiritual para se vacinar. Qual é a sinistra implicação por trás dessas declarações? Desobediência ao estado de segurança biomédica é desobediência a Jesus. Até líderes evangélicos, por meio da Biologos, emitiram um comunicado com o título “Ame seu próximo, tome a vacina!”.[1]


Como passamos de “não julgueis” sendo o versículo mais comum usado para forçar outros a serem tolerantes, para “ame o próximo”? A seguir, responderei a essa pergunta.


“Ame o seu Próximo”: Como a Bíblia está sendo Instrumentalizada Contra os Cristãos

À medida que a cultura mudou de um lugar de neutralidade e ambivalência para uma hostilidade aberta aos ensinamentos de Cristo, e como o cristianismo agora é visto como uma marca social negativa, uma instrumentalização mais ativa das Escrituras contra os cristãos está se tornando cada vez mais comum. “Não julgueis” era muito popular dentro de uma mentalidade mais libertária. Era muito popular abusar dessa frase quando o cristianismo era mais dominante culturalmente para neutralizar a ameaça da ortodoxia bíblica. Eles só queriam ser “deixados em paz”. Se eu não sou cristão, não preciso me submeter às leis de Deus, então, por favor, deixe-me em paz e pare de me julgar. Mas passamos de uma cultura neutra de “não julgueis” para uma cultura hostil de “ame o próximo”.


Agora, com o domínio cristão na cultura diminuindo, nossa cultura ainda está usando as palavras de Jesus sem ser limitada pela autoridade moral de seus ensinamentos. Ironicamente, as pessoas usam ativamente os ensinamentos de Cristo para reforçar os ensinamentos do secularismo – aparentemente, o ensino falso mais eficaz utiliza linguagem bíblica. Com o aumento do individualismo expressivo e o desejo por segurança e proteção hoje, é mais provável que as pessoas usem “amor” e “amar o próximo” não apenas para justificar seus pecados e egoísmo, mas para obrigar os outros a aprovar o pecado. “Não julgueis” era mais parecido com um tipo de confronto ao poder. Já “Ame o seu próximo” é aqueles que estão no poder respondendo às pessoas que estão tentando controlar. Se a melhor maneira de “amar o próximo” é fazê-lo sentir-se seguro, mesmo que o que você esteja fazendo não faça nada para torná-lo seguro, então isso é totalmente justificável, de acordo com esse argumento. O importante é que os outros se sintam seguros.


Isso é feito sob a linguagem bíblica de ser “altruísta” e “abrir mão de seus direitos”. “Amar o próximo” tem valor cultural, mesmo que o cristianismo cultural esteja em declínio precisamente porque nossa cultura é assombrada por Cristo. “Amar o próximo” é sobre o cumprimento de certos éditos, enquanto “não julgueis” é usado para justificar o deixar as pessoas sozinhas. Como uma visão de mundo se esvaiu enquanto outra ascendeu, esse secularismo nascente busca um texto religioso transcendente no qual basear a obediência. Que texto melhor do que a Bíblia Sagrada, que serviu de alicerce para a construção da nossa civilização? Mais uma vez, a ironia é forte: os ensinamentos de Cristo tornam-se armas contra os próprios cristãos!


O Que Realmente Significa Amar o Próximo?

Mas qual é o contexto original para “amar o próximo”? Em Mateus 22, os fariseus e saduceus estão ocupados tentando armar armadilhas para Jesus. Eles trazem a ele vários desafios para ver se conseguem pegar o Messias em contradição ou se desviando dos caminhos de Deus. Um doutor da lei, um dos fariseus, vem testar Jesus perguntando “Mestre, qual é o grande mandamento da Lei?” Respondeu-lhe Jesus:


Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. (Mateus 22:37-39)

Jesus não está criando uma nova lei. Ele está resumindo e destilando o Antigo Testamento, conforme revelado na Lei e nos Profetas. Todo o Antigo Testamento é sustentado por essas duas leis - amar a Deus e amar o próximo. Esses dois princípios fundamentais moldam nossa interpretação e uso da lei de Deus. Portanto, é cômico quando pessoas que não têm interesse na lei de Deus pegam um versículo do Antigo Testamento e o usam para aplicá-lo no que quiserem. Essa é uma maneira muito perigosa de “usar” a Palavra de Deus.


De fato, longe de apenas usar a Palavra de Deus, Jesus corretamente lê e aplica Levítico 19, uma passagem bem reconhecida como um resumo do Decálogo. Ao considerar as palavras de Moisés, Jesus não estava interessado em destruir ou abolir a lei de Deus, mas em cumpri-la (Mt 5:17). Levítico 19:18 afirma:

“Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor”.

O conceito interpretativo essencial e a realidade que informa nosso amor pelos outros é a autoridade e o poder exclusivo do SENHOR para salvar. Jesus está pegando Levítico e usando-o neste contexto com o escriba que o está colocando à prova para refutá-lo e mostrar-lhe a natureza abrangente da lei de Deus.


Por outro lado, quando o governador Gavin Newsom ostenta "amar o próximo" em Marcos 12:31 como apoio e propaganda para ajudar as pessoas a fazer um aborto na Califórnia, você sabe que algo deu errado. Nos últimos dois anos, foi sugerido que, se você vai amar o próximo, precisa, ou melhor, deve tomar a vacina, seguir distanciamento social e usar máscara. Mas e se essas medidas forem contrárias à lei de Deus, que nos ensina que apenas os doentes identificados precisam praticar medidas de isolamento para evitar a propagação na comunidade? Se Deus definiu o amor ao próximo, e se as próprias medidas e objetivos do estado de segurança biomédica contradizem a definição de Deus, então talvez não devêssemos ser tão ousados em inserir na Palavra de Deus declarações obrigatórias sobre o que é mais amoroso vindo de autoridades seculares.[1]


Amar o próximo como a si mesmo é um resumo da lei de Deus. É uma ordem definida, restringida e desenvolvida pelo que está na lei de Deus. Deus define o que é o amor. “Amor” não é um nariz de cera para se conformar com as últimas leis e preferências do mundo. Não conseguimos inserir na lei de Deus o que acreditamos ser mais amoroso. Podemos deduzir dos princípios da lei de Deus o que é mais amoroso. No entanto, pastores e cristãos hoje muitas vezes se contentam com uma visão truncada da lei de Deus, na qual seu único propósito é nos mostrar que somos pecadores que precisam da graça. Mas a lei também é pedagógica, e até bela.


Em vez de ensinar a lei com seus três usos, os cristãos muitas vezes simplesmente encobrem a natureza instrutiva da lei de Deus e se contentam com chavões sobre o que é mais amoroso. Além disso, raramente ouvimos falar da importância da lei de Deus para ensinar aos cristãos (e às nações em que eles residem) tudo o que Cristo ordenou. A lei de Deus é o padrão, e devemos declarar que é assim para todas as pessoas. Quando Jesus ordenou que devemos “[ensiná-los] a guardar todas as coisas vos tenho ordenado”, ele não pretendia que pulássemos a lei ou ensinássemos em contradição com a vontade revelada de Deus (Mateus 28:20). Ele pretendia que mostrássemos como Cristo cumpriu e sustentou a lei.


Quando as pessoas tentam forçar sua agenda política antibíblica na Bíblia, devemos rejeitar isso. A Bíblia deve moldar a sociedade e a política. Mas ai de nós se tentarmos usar a Bíblia para justificar crenças seculares sobre o que é mais amoroso. Tentar distorcer o “amar o próximo” com ideias seculares do bem comum que vão contra a lei de Deus é de fato “odiar o próximo” e é o oposto da obediência a Deus. Para aqueles que sugerem tais contorções da lei de Deus e do ensino de Jesus, de modo que levam os cristãos a pecar, seria melhor que esse mestre se afogasse no mar (Mt 18:6).


As Boas Novas da Lei

Cristo é a chave. Ele é o cumprimento da lei de Deus, e ler a lei propriamente, como Paulo coloca em 1 Timóteo 1:8–11, exige que os estudantes da Bíblia passem da lei ordenada para a lei cumprida. Esta é a boa notícia. Sem Cristo, nosso entendimento fica obscurecido e somos incapazes de compreender os ensinamentos de Deus e sua aplicação para nós hoje.


Não é de admirar que, em um mundo hostil, “amar o próximo” tenha se tornado a arma preferida para inculcar aprovação aos caminhos do mundo. Mas, nas mãos de cristãos sábios e prudentes, proclamamos as boas novas de que Cristo nos amou e de como nós, por nossa vez, obedecemos a Deus amando nosso próximo. Obedecemos aos mandamentos de Deus porque sabemos que os caminhos de Deus são a estrada que conduz à bênção para todas as pessoas. Ao amar nosso próximo como Deus ordena, levamos o evangelho até os confins da terra, ensinando as nações a obedecer tudo o que ele ordenou.

 

[1] Se aprendemos alguma coisa com os mandatos do COVID, foi o fato de que os estudiosos cristãos precisam estudar mais sobre algo chamado “biopolítica”. Cunhada por Michel Foucault no final dos anos 1970, a biopolítica é uma disciplina que investiga a maneira como os governos usam seus poderes de coerção para garantir saúde, higiene e bem-estar público.

[2] No site Christ Over All, o pastor canadense Jacob Reaume fez uma análise desta declaração de credo com relação à vacina de COVID.

 

Artigo traduzido por Éden Publicações e publicado com permissão de Christ Over All.

Todos os direitos reservados por Christ Over All e J. Chase Davis.

Leia o original em inglês aqui.


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