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Onde Está a Amizade Bíblica?

Por Joel R. Beeke e Michael Haykin


Como o óleo e o perfume alegram o coração, assim, o amigo encontra doçura no conselho cordial.

—PROVÉRBIOS 27:9



A cultura atual não oferece grande incentivo para o cultivo e o desenvolvimento de amizades profundas, satisfatórias e duradouras. Essas amizades exigem tempo e sacrifício. A cultura ocidental do início do século XXI enfatiza a ocupação ao extremo e, como via de regra, promove o receber e possuir mais do que o sacrificar e doar.[1] O que é especialmente perturbador é que os valores do cristianismo no Ocidente muitas vezes parecem ser semelhantes aos da cultura ao redor.


Como C. S. Lewis observou em seu Cartas de Um Diabo ao Seu Aprendiz, um comentário engenhoso sobre a guerra espiritual do ponto de vista do diabo,

“Nos textos cristãos modernos, (...) pouco se adverte sobre as vaidades mundanas, a escolha de amigos, e o valor do tempo.”[2]

Sem dúvida alguma, ele está certo quando se trata do tópico da amizade. Até, mais ou menos, a última década, os livros sobre amizade cristã eram poucos e raramente publicados. Felizmente, isso está começando a mudar. É preciso mudar, pois a amizade é um dos meios principais que Deus usa para fortalecer Seu povo. Se nossa geração de crentes der pouca atenção a este maravilhoso veículo da graça divina, seremos prejudicados por isso. Por conta disso, a seguir, exploraremos o que a Bíblia e alguns de nossos antepassados cristãos disseram a respeito da amizade e, então, veremos como a rica experiência de amizade do passado pode ser recuperada hoje.


No mundo antigo, a amizade era considerada de tão vital importância que o filósofo grego, Platão, (c. 428 – c. 348 a.C.) dedicou um livro inteiro, o Lísis, bem como partes substanciais de dois outros livros, o Fedro e O Banquete, para tratar da sua natureza. Aristóteles (384-322 a.C.), o outro pensador principal do período grego clássico, também considerou o tópico da amizade significativo o suficiente para que dois dos dez livros de Ética a Nicômaco, seu principal trabalho sobre questões éticas, o discutissem. Para os antigos gregos - e para os antigos romanos - a amizade era um dos mais elevados ideais da vida humana.


AMIZADE NAS ESCRITURAS SAGRADAS

Embora não encontremos tais discussões extensas sobre amizade nas Escrituras, a Bíblia fala mais sobre amizade do que muitas vezes se pensa. A amizade suprema se reflete no próprio Deus, no amor incrível que existe entre as três pessoas da Trindade. O apóstolo João expressa o amor do Pai e do Filho um pelo outro dezessete vezes (por exemplo, João 3:35). Esse amor pactual dentro da Trindade desde a eternidade, expressa-se no amor pactual de Deus por Seu povo no tempo através do evangelho. Por causa desse amor de aliança, Deus pôde chamar Abraão de seu amigo (Isa. 41:8). O amor pactual de Deus para com Seu povo indigno reflete uma profundidade surpreendente quando Jesus ora a Seu Pai em João 17:23 “para que o mundo conheça que tu me enviaste e os amaste, como também amaste a mim”.


As Escrituras também fornecem ilustrações maravilhosas de como deve ser a amizade. Há a amizade pactual de Davi e Jônatas, por exemplo, um bom modelo de “amigo mais chegado do que um irmão” (Pv. 18:24). Ou a de Rute e sua sogra, Noemi, que foram prova de que “em todo tempo ama o amigo” (Pv. 17:17). Na verdade, ao longo de Provérbios, aquele compêndio sobre como viver sabiamente neste mundo, há pepitas de conselhos sobre como ter amigos e mantê-los.[3] Esses textos deixam a impressão de que o mundo da Bíblia considerava a amizade uma parte importante da vida.


Duas ideias centrais são encontradas na representação bíblica da amizade.[4] A primeira é que a amizade envolve amor mútuo e a união de almas. Deuteronômio fornece a primeira menção disso quando descreve o “amigo que amas como à tua alma” (Dt. 13:6; cf. Lv. 19:18); ou seja, um amigo é um companheiro dos pensamentos e sentimentos mais íntimos de uma pessoa. Em 1 Samuel 18:1, aprendemos que “a alma de Jônatas se ligou com a de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma.” Aqui vemos que os privilégios e responsabilidades da amizade bíblica estão enraizados no amor pactual mútuo, na intercomunhão e no investimento pessoal no outro.


A segunda metáfora que a Bíblia usa para representar a amizade é o encontro face a face. No tabernáculo, Deus falou a Moisés “face a face, como quem fala a seu amigo” (Êx. 33:11 (NVI); veja também Nm. 12:8). A imagem de um encontro face a face implica contato, comunhão e compartilhamento de confidências, resultando em uma fusão de mentes, objetivos e direção. Um dos benefícios de tais encontros face a face entre amigos é a edificação mútua e o encorajamento que tais encontros produzem. Como Provérbios 27:17 diz: “Como o ferro com o ferro se afia, assim, o homem, ao seu amigo.”


 

(Esse texto foi extraído do livro "Como Cultivar a Amizade Bíblica" de Joel R. Beeke. Você pode adquirir o livro aqui.)

 

[1] Diogenes Allen, Love: Christian Romance, Marriage, Friendship (Cambridge, MA: Cowley Publications, 1987), 45–46. [2] C. S. Lewis, "The Screwtape Letters", in The Best of C. S. Lewis (Washington, D.C.: Canon Press, 1969), 43. [edição em português: Cartas de um diabo a seu aprendiz, (Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2017), Página 63. [3] Para encontrar alguns desses textos, veja Provérbios 6: 1-3; 16:28; 17: 9, 17; 18:24; 27: 6, 9–10, 14, 17. Observe também a breve meditação sobre amizade em Eclesiastes 4:9-12. [4] Dictionary of Biblical Imagery, ed. Leland Ryken et al. (Downers Grove, IL: InterVarsity Press, 1998), sv. “friendship”.

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